O abandono dos filmes de animação tradicional apresentou-se com o intuito de dominar inteiramente o cinema digital.
Como tal, o tempo corre de feição para os pixéis e para a Pixar, razão pela qual a promoção de “Kenai e Koda”, apesar de todo o profissionalismo da empresa americana, tenha tido um suave cheiro a velório. Quase toda a equipa responsável pela produção desta longa-metragem abandonou os estúdios de Orlando e preparou a sua transição para Los Angeles, onde a Disney estaria a investir em força na animação digital.
Adeus pincéis, olá computadores.
Williams, que iniciou a sua carreira a montar filmes de imagem real, ligados à animação tradicional, saltou para a digital.
Não acredito que a animação tradicional vá desaparecer por completo, mas vamos com certeza vê-la menos nos próximos tempos, devido às exigências do mercado. Os filmes de animação de um grande estúdio são como uma corrida de bicicletas, uns puxam pelos outros, quando um é menos bem sucedido isso afecta os restantes. E actualmente a Pixar é quem leva a camisola amarela.
È um processo novo, que ainda está bastante fresco. Mas nos próximos cinco anos o mercado vai ser inundado com filmes 3D, vai haver sucessos, mas também fracassos. (...) é da natureza das coisas que elas mudem. E quando mudam, geralmente enriquecem.
Alex Kupershmidt, responsável pela animação de Koda, assistiu-se a uma mudança de paradigma: Para a geração que sempre trabalhou na animação tradicional é como se fosse o aparecimento som.
Sara Gonçalves
Kenai e Koda: Falando com os realizadores
Kenai e Koda. A história tem lugar há dez mil anos atrás, na América do Norte, na Idade do Gelo, onde Kenai, um rapazinho índio recebe os Grandes Espíritos, um Totem que é a imagem de um urso simbolizando o seu destino e a descoberta do amor. Quando Stika, o mais velho dos três irmãos, o outro chama-se Denahi, morre ao tentar salvar os irmãos de um ataque de urso, o ódio apodera-se de Kenai que persegue e mata o urso, transformando-se ele próprio em um. E é aqui que toda a aventura tem o seu ponto de partida. Por pura ironia, Kenai, agora tranformado em urso, é perseguido pelo seu irmão Denahi, enquanto tem de encontrar Stika, responsável pelo feitiço da montanha "onde o Sol toca a Terra" . No seu caminho, conhece um pequeno urso, Koda, que se perdeu da mãe e espera encontrar-se com ela na "desova do salmão", uma espécie de reunião anual dos ursos, perto da Montanha Mágica. E é no caminho para o seu destino que Kenai aprende a descobrir o mundo.
Ironicamente, aquele que marca o fim dos filmes de animação tradicional Disney, marca a estreia na realização de dois animadores que há 14 anos se envolvem em projectos de animação tradiocional nesta mesma casa. Aaron Blaise e Robert Walker têm então, a responsabilidade do adeus da Disney com Kenai e Koda (Brother Bear, no original), que marca o fecho dos míticos estúdios da Flórida onde se desenvolveram clássicos como Mulan (1998) ou O Rei Leão (1995). O objectivo? "Queria fazer um filme que fosse uma aventura", mas também que "reflectisse sobre a importância de conseguir ver o mundo a partir de outra perspectiva", diz Blaise. A inspiração? A intensa pesquisa em bibliotecas e livrarias ao longo de meses e meses, em busca de histórias, mitos e lendas. O argumento foi reescrito centenas de vezes. O final? "Uma história sobre amizade e tolerância entre homens e animais" pois nas suas buscas "descobrimos que quase todas as culturas têm histórias que falam da transformação de homens em ursos e defendem que os animais são apenas pessoas com uma roupa diferente", refere Walker. Essa é o facto cruacial? "Sem dúvida. Numa época em que a guerra é cada vez mais uma realidade, é importante transmitir às crianças que não há bons, nem maus, mas sim pessoas que erram e merecem ser perdoadas." diz.
A música? A Disney recrutou o já colaborador Phil Collins, que assinou a banda sonora de Tarzan (1999) onde ganhou o Óscar de Melhor Canção Original.
Os cenários? A inspiração veio das montanhas, vulcões e animais do Alaska e Wyoming onde dezenas de criadores resistiram às intempéries do ambiente que, testemunharam na primeira pessoa, para conseguirem captar e transpôr para a tela toda a realidade envolvente. Trabalharam o aspecto do filme como se de uma pintura a óleo se trata-se, inspirados pelas pinturas do século XIX de Bierstadt sobre as Montanhas Rochosas e o Vale de Yosemite, na zona Oeste dos EUA. "Cada lugar, pessoa ou animal tem uma história única, que quando é pintada faz nascer um forte sentimento de real, mas também de magia", diz Walker. "É isso que é singular neste filme e, de modo geral, na animação tradicional." A opinião é partilhada por Blaise: "Quando vemos um quadro, temos sempre a sensação de que há algo para além dos limites da tela. Nos filmes criados a partir de desenhos acontece o mesmo. O mundo parece transcender sempre o que a câmara consegue captar."
E como encaram a perspectiva de Kenai e Koda ter sido feito em animação digital? "Não era possível fazer este filme de outra maneira", diz Walker. "É uma espécie de 'moving painting'. O calor físico da mão sente-se em cada imagem, é como se estivéssemos a observar uma pintura a óleo. E isso é algo que os computadores nunca conseguirão recriar." continua: "O computador torna tudo mais artificial e faz com que as personagens sejam muito mecânicas. Há um sentido de real que se perde e põe em causa a magia dos filmes."
Como se adivinha o futuro? "Toda a equipa que vai para Los Angeles já está a receber formação em computação gráfica e não tardará muito a que estejamos ao nível dos nossos concorrentes" diz Blaise. Preocupações? "a Disney ter resolvido acabar com a animação tradicional" refere ainda. E esperanças? "o futuro passará por um regresso à animação tradicional. Assim que passar a novidade da animação computadorizada, haverá uma contaminação entre os dois tipos de animação e isso é que será estimulante. As possibilidades serão ilimitadas." sublinha Blaise.
Apesar do chamamento e de saberem reconhecer as vantagens desta nova forma de animação, no que toca à criação e coordenação das cores, por exemplo, não se mostram muito interessados nas novas técnicas. Para a dupla de realizadores e animadores "O mundo do desenho é o verdadeiro mundo do sonho".
Ana Mestre
Fonte:http://www.bedeteca.com/index.php?pageID=recortes&recortesID=1310
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